De HQs a documentários: investigando histórias que continuam no próximo episódio

Conheça Marcelo Lima, pesquisador, roteirista e tutor na Usina 20

Por Enoe Lopes Pontes

Desde os anos 1990, quando ainda era criança, Marcelo criou a tradição de visitar bancas de revistas, com o intuito de adquirir as histórias em quadrinhos que tanto amava. Sua relação com as narrativas seriadas foi uma crescente em sua vida. No consumo, era apaixonado pelo anime Cavaleiros do Zodíaco e, posteriormente, pela série Lost (ABC, 2004-2010). Já na fase adulta, passou a enxergar o campo como um local de trabalho, entrando no mercado de criação de gibis e de seriados.

Além disso, Marcelo descobriu, a partir de sua graduação, que poderia adentrar no campo científico, investigando temas e produtos que tanto apreciava. Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo PósCom/UFBA, o roteirista atualmente segue a carreira de professor e pesquisador, dando continuidade aos estudos conduzidos em seu doutoramento. Em sua carreira como contador de histórias, o currículo é longo! Entre suas principais produções como autor estão Formula Dreams (Série Documental, 2019), Auts (Animação, 2020) e Os Afrofuturistas (Animação e HQ, 2021).

Marcelo Lima concedeu uma entrevista para a equipe da Usina do Drama e contou um pouco sobre seus projetos e processos criativos, bem como os seus pensamentos sobre roteiro e o audiovisual na Bahia.

É preciso aprimorar o que é produzido na Bahia pensando em criar não apenas narrativas subjetivamente ricas, mas também produtos com alto valor de entretenimento e potencial de negócio.

ENTREVISTA

ENOE LOPES PONTES – Me conta um pouco sobre sua relação com o audiovisual e com as narrativas seriadas!

MARCELO LIMA – Sempre preferi narrativas seriadas a obras unitárias. Desde criança consumo muita narrativa seriada em forma de HQs e desenhos animados. O ritual de visitar bancas de revistas atrás dos gibis favoritos e a espera ansiosa pelo novo episódio de Cavaleiros do Zodíaco marcaram muito minha infância e adolescência. Me atentei para as séries live-action somente a partir de Lost, que virou uma pequena obsessão durante certo tempo.

ELP – Observando seus trabalhos dá para notar que você tem uma relação com animações e HQs. Fale mais sobre isso.

ML – A minha formação de imaginário e consumidor de ficção nasceu atrelada ao lado nerd/geek do entretenimento. Nunca fui muito de cinema autoral vanguardista, sempre gostei de cultura pop, e cartoons e HQs foram algumas das minhas principais fontes de atenção. Amo narrativas que versam com um imaginário muito fértil sem perder a mão de entreter e contar uma história emocionante, então, naturalmente esse tipo de conteúdo é familiar para mim.

ELP – Como foi sua trajetória de inserção como roteirista no mercado audiovisual e de séries de TV? 

ML – Esta trajetória tem sido lenta, mas vigorosa, o que me parece ser o ‘normal’ desse ofício.  Muito antes do audiovisual eu já fazia HQs e estudava roteiro desde 2007. Meus trabalhos para HQs chamaram atenção de produtoras de desenhos animados, por eu já ter facilidade de escrever criando imagens narrativas que prezam mais pelo mostrar mais do que pelo contar os fatos da história. O engraçado é que eu sempre fiz HQs para público adulto, então entrei na Animação sem saber como escrever para crianças e todos os produtos que participei eram voltados para este público. Por sorte, contei com ótimos e generosos mestres. Após mais de uma década roteirizando HQs e animações, atualmente também estou envolvido no desenvolvimento de séries de live-action  para o público jovem-adulto e em fase de negociação para venda e participação em salas de roteiro das principais plataformas de streaming atuantes no Brasil. Espero poder divulgar em breve.

ELP – E na área acadêmica, como foi esta inserção? 

ML – A área acadêmica me atraiu ainda na Graduação por conta da possibilidade de pesquisar os produtos de mídia que eu tanto amava com um olhar analítico que eu sabia que também beneficiaria meu fazer roteirista. Sou muito grato às orientadoras que acolheram meus projetos, Itania Gomes na Graduação e Maria Carmen no Mestrado/Doutorado, cujos resultados finais de pesquisa me orgulham. Na área acadêmica minha participação está mais vinculada, atualmente, como professor, função que gosto muito de desempenhar. 

ELP – Qual a sua visão sobre o audiovisual baiano? 

ML – O audiovisual baiano tem um potencial muito grande para crescer porque há muitos roteiristas, diretores e produtores jovens se destacando. Penso que vivemos um momento em que saber fazer do audiovisual um negócio é essencial para manutenção de carreiras, haja vista que as políticas públicas que financiam iniciativas mais autorais e para um público menor estão fragilizadas. Nesse sentido, acho que o audiovisual baiano vai se beneficiar ao criar ainda mais laços com o mercado, com os executivos de plataformas de streaming e canais, com o investimento na qualificação, enfim… É preciso aprimorar o que é produzido na Bahia pensando em criar não apenas narrativas subjetivamente ricas, mas também produtos com alto valor de entretenimento e potencial de negócio.

ELP – Fazendo um balanço dos últimos 5 anos, o que você vê de pontos positivos e negativos dentro do mercado audiovisual da Bahia? 

ML – Nos pontos positivos, vejo muitos talentos surgindo, muita gente, especialmente os criadores negros, se articulando para trabalhar em colaboração. A existência de políticas públicas de financiamento direto em âmbito estadual e municipal (no caso de Salvador). Consolidação de eventos/ações como o NordesteLab, Usina do Drama, Panorama Coisa de Cinema etc. Já nos pontos negativos, acredito que ainda há necessidade de mais qualificação em todos os campos. Grande parte dos melhores profissionais baianos saem do estado. Os roteiristas ainda têm dificuldades em produzir seus projetos, pois muitas produtoras já possuem uma cartela de obras a serem realizadas. E, ainda, a distância geográfica do centro cultural e econômico do país impõem barreiras para que os profissionais baianos despontem.

ELP – Quando e como você entrou no projeto da Usina do Drama? 

ML – Estava na origem do projeto, o que foi em 2016 (acredito). Inclusive fui um dos escritores/formuladores do projeto que foi aprovado pela SecultBA e aqui estamos. Eu já fazia parte do grupo A-Tevê (grupo de pesquisa vinculado ao Póscom/UFBA e dedicado a análise de teleficção e narrativas seriadas), mas ainda não tinha uma participação ativa na Estação (do Drama, projeto de Extensão vinculado ao A-Tevê). A abertura do Edital de Formação da SecultBA me envolveu no processo, pois tinha ideias para esse formato de lab e experiência com escrita de projetos culturais. Fico feliz de ter somado aos colegas no nascimento desse projeto.

ELP – Quais elementos e acontecimentos você destacaria desta vivência como professor da Usina?

ML – Destacaria o contato com os alunos. Conheci muita gente massa. Tive/tenho oportunidade de trabalhar com vários ex-alunos até hoje, inclusive um deles atualmente é meu sócio de empresa (risos). Gosto da ideia de, quando possível, auxiliar bons roteiristas a acessar o mercado, seja indicando ou contratando, especialmente quando ainda não possuem experiência. Sobre acontecimentos, eu amo pitchings finais, então destaco esse evento e já aguardo o dessa edição.

ELP – Quando você está ensinando e em tutoria, você traz dicas para a escrita de um bom roteiro? Se sim, quais seriam as fundamentais?

ML – Claro! Aliás, eu amo dicas e macetes tanto quanto gosto de conceituações mais profundas. Sobre o roteiro, o que recomendo é gastar muito tempo na estruturação da história, pois é muito fácil se perder quando você não sabe, com clareza, qual o conflito central da obra, o tom que se deseja evocar e os eventos-chave da narrativa. Parece fácil contar uma história, mas com frequência investimos numa ideia sem deixar a motivação do protagonista evidente ou, em alguns casos, sem ter certeza de quem é o protagonista. Não adianta ir para o roteiro sem antes fazer um mergulho nessas questões de base. 

ELP – Quando você está avaliando um projeto ou um argumento, quais são as primeiras coisas que você observa?

ML – Se há uma história com eventos bem encadeados. Se há um protagonista, ou grupo de protagonistas, com objetivos dramáticos compreensíveis e com potencial para gerar ancoragem com o público. E gosto de ir aos detalhes, ver se as partes da história conversam entre si, se há furos de roteiro, premissas complicadas demais e por aí vai. Oriento muito os alunos no caminho de descomplicar/simplificar as narrativas, sem que com isso também se incorra em didatismos. Fato é que a atenção da audiência é um recurso raro nos dias de hoje, então fisgá-la com histórias que tenham conflitos dramáticos facilmente compreensíveis é vital.

ELP – Por fim, conta o que você pensa sobre o projeto Usina do Drama! Você acredita que ele pode interferir de quais formas na carreira de roteiristas e futuros roteiristas?

ML – Considero a Usina do Drama mais que um projeto de formação de roteiristas, dado que é uma iniciativa que também aguça conhecimentos teóricos que agregam na Direção, Produção, e outros ofícios do audiovisual. Assim, é um projeto essencial para desenvolvimento de carreiras e de reflexão teórico-prática desse campo, sobretudo na Bahia, e que tem auxiliado bons projetos a se concretizarem mais rápido e com mais qualidade.

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