Luz, câmera, paixão.

Conheça Sofia Federico, cineasta e roteirista pra quem a arte de contar histórias sempre esteve relacionada à aprendizagem

Por Enoe Lopes Pontes

Sofia Federico é um nome conhecido no cinema baiano e nacional. Com uma carreira consolidada no audiovisual, a cineasta e roteirista dirigiu filmes como Caçadores de Saci e Vermelho Rubro do Céu da Boca. Em 2003, chegou a receber uma indicação da Academia Brasileira de Cinema, por Cega Seca. Recentemente, comandou a série de TV infanto-juvenil Francisco Só que Jogar Bola, transmitida pela TVE. Formada em Comunicação, pela UFBA, Sofia explica que a sua entrada na área aconteceu de maneira bastante espontânea. Iniciando sua jornada ora como jornalista, ora como assessora de imprensa, paralelamente trabalhava em curtas-metragens de amigos.

A cineasta também conta que a sua paixão pelo cinema começou desde cedo. Na sua infância e adolescência, Sofia gostava de envolver filmagens em trabalhos da escola — reunia os amigos e realizava diversas gravações. Para ela, esta foi uma espécie de porta de entrada para este universo. Dentro de sua trajetória, experimentou linguagens em seu campo de atuação, desenvolvendo projetos cinematográficos e de narrativas seriadas, mas também se inseriu na seara mais administrativa, fazendo parte da Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV) e da diretoria do Departamento de Imagem e Som da Bahia (DIMAS/FUNCEB).

Atualmente, Sofia é uma das sócias da produtora Benditas Projetos Criativos, e cursa mestrado no Programa de Pós Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (UFBA) e integrou a turma da Usina 20! Este mês, a diretora concedeu uma entrevista para a nossa equipe e falou um pouco sobre a relação que possui com seu ofício, seu processo criativo, os desafios da área, sua participação na Usina e muito mais!

Foto: Marcos Povoas

Saber escrever bem não é suficiente. Tem que entender de narrativa, conhecer fundamentos de dramaturgia, adquirir conhecimento sobre linguagem audiovisual, enfim, é preciso estudar muito e ampliar repertório.

ENTREVISTA           

ENOE LOPES PONTES – Como aconteceu a sua entrada na área do audiovisual?

SOFIA FEDERICO – Desde a escola, ainda adolescente, eu sempre me interessei por essa linguagem e por essa forma de expressão. Cheguei a realizar atividades escolares em vídeo, em trabalhos de grupo. Isso foi no final da década de 1980, quando o VHS começou a se popularizar. Um colega da sala tinha a câmera e o player que também gravava. Olhando para o passado, acho que já era uma experimentação e uma “porta de entrada” para esse universo. Eu me divertia horrores!

ELP Quando você está desenvolvendo seus projetos, como funciona o seu processo de criação? 

SF – Depende do projeto e do processo de criação da obra. Em geral, começa com uma imagem, mas o disparador pode ser uma notícia que li no jornal. Se estou escrevendo sozinha, o processo é extremamente introspectivo, fica tudo girando na cabeça; não escrevo nada enquanto não tiver uma rota mínima traçada. Por exemplo: às vezes eu tenho a personagem, mas a motivação não está clara. Outras vezes, eu tenho a motivação, mas a personagem não convence. Então, enquanto não tenho essas definições mínimas, eu não costumo sentar para escrever, mas fico o tempo inteiro pensando naquilo. Quando estou escrevendo com outras pessoas, o processo precisa ser compartilhado o tempo todo com quem está envolvido, senão não funciona. E aí nessa roda de criação, você tem que apresentar, por exemplo, ideias que ainda não estão maturadas o suficiente. Mas você necessita trazer à tona, porque a proposta é de construção coletiva. Enfim, são processos muito distintos.

ELP – Me conta sobre seus principais trabalhos dentro da área!

SF – Eu acho importante citar o curta de ficção Cega Seca, de 2003. Foi o primeiro filme em que tive recurso público para produzir. O curta rodou muitos festivais, numa época em que ainda era necessário enviar as películas fílmicas por avião! Foi um aprendizado imenso. Cito também Francisco só quer jogar bola, de 2020, série de ficção com 13 episódios, de 26 minutos, voltada para o público infantil, produzida pela Docdoma Filmes. Foi um projeto dos mais desafiadores, porque a proposta era criar uma série protagonizada por crianças. A primeira missão foi desenvolver um seriado desse tamanho em três meses, um tempo muito curto. Os outros desafios foram ainda maiores, tendo sido o principal deles produzir um conteúdo com seis crianças em cena.

ELP – Quais características você elencaria como fundamentais para um bom roteirista?

SF – Creio ser muito importante a capacidade de escuta: saber se escutar, escutar a pessoa com quem você está trabalhando — seja ela quem for — e escutar o mundo, as questões que estão “no ar”. Além disso, eu acho fundamental que um bom roteirista domine a técnica do seu ofício. Saber escrever bem não é suficiente. Tem que entender de narrativa, conhecer fundamentos de dramaturgia, adquirir conhecimento sobre linguagem audiovisual, enfim, é preciso estudar muito e ampliar repertório.

ELP – Dentro dos seus anos de profissão, quais foram os principais desafios encontrados? Você teria alguma dica para quem está começando?

SF – Sempre são muitos os desafios, cada projeto apresenta um desafio distinto. Pra quem quer começar, eu sugiro que se coloque à disposição do mercado sem querer nada em troca, além de aprendizado e conhecimento. Busque uma produtora e se ofereça para trabalhar em algum projeto por um prazo determinado. É uma maneira de se inserir na área, conhecer as pessoas que já estão atuando no campo, saber como é feito o trabalho e formar uma rede de relações. Em paralelo, se dedique à criação do seu projeto. Nunca abra mão disso.

ELPComo você enxerga a sua atuação neste momento no mercado audiovisual baiano?

SF – ­­ Eu me vejo como profissional atuante no setor, trabalhando, sobretudo, nas áreas de criação e direção de conteúdos audiovisuais de ficção. Sou sócia da Benditas Projetos Criativos, empresa que vem executando desde 2014 diversos projetos formativos e de produção audiovisual. Atualmente, estamos realizando o Programa narrAtiVas, em parceria com o Estação do Drama, e o Programa de Formação Continuada em Game Design, em parceria com o Comunidades Virtuais. Estamos finalizando duas novas séries: a ficção Pequeno Tratado de Pequenas Coisas e a documental Todos os Sonhos.

ELPO que você tem a dizer sobre o mercado audiovisual baiano?

SF – Mercado ainda muito pequeno, mas bastante potente, com uma capacidade criativa e produtiva imensa. Vínhamos crescendo, muitas empresas novas foram formalizadas, sobretudo após a criação da Lei 12.485/11, a Lei da TV Paga*. A partir de 2019, começou um processo de desaceleração do crescimento, em todo país, impactado pela paralisação das políticas públicas que vinham sendo implementadas pelo Governo Federal, desde 2003. O momento atual é bastante grave e preocupante. A ANCINE virou uma grande incógnita; a principal fonte de recurso, que é o Fundo Setorial do Audiovisual, está com seu fluxo de financiamento interrompido, e o mercado global está em processo acelerado de mudança e reconfiguração. Pra gente conseguir acompanhar esse ritmo, só com política pública robusta e regular. O projeto do Governo Federal para o audiovisual brasileiro é claro e está em franco processo de execução: enfraquecer, estrangular, asfixiar e deixar morrer. Não conseguirão.

ELPComo você falou um pouco agora, o mercado apresentava características promissoras. Pensando nisso, me conta como enxerga as mudanças do mercado nos últimos cinco anos.

SF – Há cinco anos, estávamos vivendo o boom causado pela criação da Lei 12.485/11, que sem dúvida causou um incremento da produção audiovisual brasileira. Isso significa na prática que estávamos vivendo num contexto em que havia efetivamente demanda por conteúdo produzido por empresas brasileiras independentes. Havia uma profissionalização e a capacitação cada vez maior dos artistas, técnicos e gestores que atuam na área. A meu ver, isso se deve a um conjunto de fatores: aumento da oferta de cursos e eventos formativos; a proliferação de laboratórios e eventos de mercado, visando estreitar as relações entre os diversos agentes da cadeia produtiva do setor; e o incremento da produção, possibilitando o exercício prático da atividade, de forma regular. Vejo também um interesse cada vez maior do segmento distribuidor por diversificação dos formatos, ampliando possibilidades de criação para além do cinema e dos formatos tradicionais da TV. Contudo, existe o fator que abordei em minha fala anterior. Existe um desmonte das políticas públicas voltadas ao setor. Esse desmonte começou em 2018 e permanece.

ELP – Sobre a Usina do Drama, como você entrou no projeto?

SF – Em 2017, eu integrei uma mesa sobre mercado baiano e o lugar do roteirista na criação de séries. Me lembro que foi no contexto do lançamento do primeiro edital da Usina, o auditório da FACOM estava cheio! Eu adorei participar! Já estava acompanhando de longe as ações do Estação do Drama. Em 2020, fui convidada a integrar a comissão de pareceristas da Usina, avaliando um conjunto de pré-projetos inscritos. Foi muito interessante a experiência e uma boa oportunidade de conhecer propostas em início de gestação. É riquíssima a diversidade de temas, as formas de olhar e de abordar uma mesma questão, as motivações dos autores. Tem muita gente querendo se expressar e que aposta no formato seriado para isso. No ano passado, também participei de alguns dos cursos oferecidos pelo projeto e foram encontros de muito aprendizado.

ELP – Qual importância você vê no projeto?

SF Esse é um projeto altamente relevante de formação, focado no autor roteirista, mas que não fica restrito às questões, desafios e técnicas concernentes ao desenvolvimento do roteiro propriamente dito. A formação é mais ampla, porque também oferece ao participante um entendimento do mercado e sua cadeia produtiva, preparando o roteirista para ter uma visão da sua obra também como um ativo econômico, não somente como uma criação artística. Na Usina, o roteirista aprende, por exemplo, o quanto é necessário pensar em modelos de negócio e compreender como se dá a difusão de uma obra. Enfim, esses recursos são importantes para ajudar o autor a caminhar nesse mundo complexo e em permanente mutação, que é o segmento audiovisual. Estamos vendo resultados concretos, com projetos que passaram pela Usina se destacando em festivais e editais importantes. E alguns já saíram do papel e estão na tela, em exibição na TV, como a série documental Agbara Dudu – Narrativas Negras, de Silvana Moura.

ELP – Você acredita que fazer parte da Usina 20 afetou de alguma maneira o rumo de sua trajetória e/ou da forma como você pensa o audiovisual baiano e nacional?

SF – O projeto confirma para mim a importância da formação como base para se consolidar nessa área, que é altamente competitiva e que vem, cada vez mais, buscando pessoas qualificadas. A Usina cumpre um papel relevante dentro desse ecossistema. Ao participar como parecerista na edição de 2020, eu fiquei impressionada com a quantidade de histórias com vocação para ganhar as telas. Os pré-projetos que tive a oportunidade de ler demonstram que existem autores-roteiristas inventivos, com ideias incríveis a burilar, que estão ávidos para ingressar num mercado pelo qual são apaixonados. São pessoas que estão loucas pra aprender como fazer. O que a Usina do Drama diz é: venham!

*A Lei da TV Paga, em vigor desde setembro de 2011, consiste em colocar como obrigatória a exibição de, pelo menos, 3h30 de conteúdo brasileiro dentro da programação dos canais pagais do país, semanalmente.

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