Das locadoras aos festivais de cinema

Conheça um pouco da trajetória do roteirista e diretor Klaus Hastenreiter, integrante da turma da Usina 20

Por Enoe Lopes Pontes

Diretor, roteirista, montador, Klaus Hastenreiter elenca múltiplas funções dentro do audiovisual baiano. Desde 2012, fundou a produtora Olho de Vidro, ao lado de sua esposa, a também cineasta, Hilda Lopes Pontes. A dupla, inclusive, roda um novo curta-metragem, este mês, com a filha de 5 anos como protagonista. Os projetos da Olho são expressivos em quantidade — são rodados, aproximadamente três curtas por ano — e em resposta do público e da crítica.

A partir da fundação da empresa, Klaus conta que o seu trabalho foi acontecendo e sendo cada vez mais reconhecido. “Mandam mensagens para a gente, participamos de diversos festivais dentro e fora do país e ganhamos prêmios. Me sinto honrado com tudo isso”, comenta. Toda esta jornada começou com um Klaus adolescente, que trabalhava em uma locadora de vídeos, aos 14 anos. 

Apaixonado pelo universo cinematográfico, já foi crítico e acredita que ocupar esta função foi essencial para a apuração de seu olhar em relação aos filmes e séries que acompanhava com tanto afinco. Até chegar o momento no qual escreveu seu primeiro roteiro, foram muitos anos de estudo contínuo. Neste pensamento de fomentar as suas habilidades, Klaus decidiu se inscrever no processo seletivo da Usina do Drama 2020. 

Após a sua seleção, integrou o time orientado pela tutora Amanda Aouad no nosso processo de mentoria. Todas estas informações foram descobertas em uma entrevista cedida para a nossa equipe. Nela, o diretor nos contou um pouco mais sobre o início de sua carreira, os desafios e os processos que vivenciou, focando, principalmente, na sua trajetória como roteirista. Agora, você pode conferir o conteúdo completo deste ping-pong!

Foto: Marina Lordelo

“Hoje em dia eu me sinto muito mais animado no trabalho coletivo de escrita no que no labor individual, e as possibilidades de troca de experiências, ideias em uma sala de roteiro.”


ENTREVISTA

ENOE LOPES PONTES: Como e quando você começou a trabalhar com o audiovisual
KLAUS HASTENREITER: Comecei a trabalhar na área do audiovisual como funcionário de uma locadora, com 14 anos. No mesmo ano, passei a escrever crítica de cinema pra um blog e depois disso passei por diversos sites, me aventurando por vídeos e rádio. Gosto muito de pontuar como a crítica me incentivou a passar para o outro lado da câmera, e sem ela não teria decidido me tornar roteirista e diretor. Em 2011 dirigi o curta-metragem “Olho de Vidro”, como trabalho de uma matéria da faculdade. Me apaixonei pelo ofício e não parei mais!

ELP: Quando decidiu seguir a carreira de roteirista?
KH: A decisão de me tornar roteirista pra mim se tornou algo muito processual. Demorou um pouco pra eu conseguir me apresentar como roteirista, para acreditar em mim como alguém capaz de escrever roteiros profissionalmente. Do primeiro roteiro de curta que escrevi em 2011, até o primeiro roteiro de longa-metragem finalizado em 2018, foi um longo processo de idas e vindas. Sempre tive um medo, um respeito e um desejo enorme pela escrita de algo maior, que possa ser visto na tela do cinema, mas sempre empacava lá pelas páginas 35, 40, dos meus roteiros. Acho que quando escrevi minha primeira “página 50”, eu parei, olhei para o computador, e me senti um pouquinho mais capaz de enfrentar essa carreira.

ELP: Como funciona o seu processo criativo?
KH: No mundo ideal, eu faria como Stephen King: teria todas as manhãs tranquilas em um escritório fechado pra escrever. Mas não é minha realidade. Filmando muito job pra sobreviver, criando uma filha pequena, a parte da escrita, uma das minhas favoritas, se encaixa onde dá na minha rotina. Meu processo se inicia em um bloco de notas, onde cada semente de ideia se torna um arquivo em branco. A partir disso, a semente vai crescendo com pequenas epifanias diárias, inspiradas no que vejo ao meu redor, que vão sendo anotadas de forma avulsa nesse arquivo. Esse processo pode demorar de 6 meses a 3 anos em média. Então, um belo dia aleatório, me vem a vontade de organizar esses apontamentos feitos em um argumento — ou diretamente em um roteiro, quando a sede é grande ou surge a oportunidade de algum laboratório de escrita. Crio uma playlist de músicas que conversam com a atmosfera que quero propor, coloco um fone de ouvido, e escrevo até as mãos doerem.

ELP: Quais foram os seus principais projetos na área? 
KH: Apesar de “Olho de Vidro” ter sido o primeiro curta que dirigi, considero “Não Falo com Estranhos”  o roteiro que se tornou um pontapé pra minha carreira. Foi com esse filme que ganhei meus primeiros prêmios como roteirista e diretor. Foram 4 anos do primeiro ao último tratamento da escrita, sempre postergando sua realização, e acho que esse amadurecimento beneficiou bastante o projeto. Outro projeto que destaco é o longa-metragem “Borderô”, que escrevi a 4 mãos com Hilda Lopes Pontes, lá em 2018, e tem trazido muita alegria pra gente. Passamos pelo Pan Lab, laboratório de roteiro do Panorama Coisa de Cinema e sua versão reduzida, em curta-metragem, foi aprovado no edital setorial de 2019. Estamos esperando um momento mais seguro para filmar, quando a pandemia do coronavírus for estabilizada. 

ELPVocê teve algum projeto bastante desafiador? Como foi este processo? 
KH: O roteiro de longa-metragem “Meninos de Cinema” pode ser considerado meu momento mais desafiador enquanto roteirista. Não apenas pela escala, mas por ser um embrião que passou 7 anos sendo amadurecido em um bloco de notas, sempre sendo postergado até que pudesse ser posto no papel. Tudo que era escrito não parecia atender as expectativas, criei uma idealização quase religiosa em cima desse roteiro que nunca poderia ser honrada. A sensação que eu tinha era de que se esse roteiro ficasse ruim, eu nunca poderia continuar na carreira de roteirista. Apenas quando eu tive a oportunidade de compartilhar essa escrita, novamente com Hilda Lopes Pontes, que esse peso conseguiu ser dividido e pudemos seguir em frente. Hoje o roteiro está pronto em uma gavetinha, esperando a vez dele novamente para  ser reescrito, e, quem sabe, filmado.

ELPQuais as principais características que um bom roteirista precisa ter?
KH: Paciência pra esperar a hora certa de escrever, humildade para ouvir as críticas dos amigos, resistência pra aguentar os momentos de insegurança (e as dores nas mãos), e observação — essa é minha característica favorita — pois tudo que acontece a nossa volta pode vir a ser página de roteiro algum dia.

ELPQuais desafios você encontrou na área de roteirista e o que diria para quem deseja começar?
KH: Depois do desafio interno, de se entender e reconhecer que você agora é um roteirista, o mais difícil é se encaixar no contexto cultural de sua realidade. Existem duas opções: você criar seus projetos ou você se encaixar nos projetos dos outros. Ambas as opções são complexas, pois na primeira você tem que conseguir financiamento pra sustentar seus sonhos — e sua vida, e na segunda você pode se ver refém de uma estrutura hierárquica que te impede de satisfazer suas vontades. Decidi tentar as duas vias ao mesmo tempo e até então tenho tido boas oportunidades. Esse seria meu conselho pra quem deseja começar: cultive suas sementes, seus projetos próprios, mas se abra para as possibilidades de parcerias. Ah, use o Celtx [ferramenta para escrita de roteiro] também, é uma mão na roda!

ELPComo é a sua atuação no mercado baiano de audiovisual?
KH: Eu tenho dificuldade de buscar um olhar externo sobre como eu me insiro no meu contexto local. Eu corro o risco de me diminuir demais ao me comparar com pessoas as quais eu sou verdadeiro fã, ou ser visto como prepotente ao errar e me ver muito além do que verdadeiramente sou. Parando pra observar a produtora a qual faço parte, a Olho de Vidro Produções, e o trabalho que desenvolvo com meus colegas, fico mais confortável em ver que estamos trilhando um bom caminho, onde ainda não chegamos no lugar que desejamos, mas já temos alguma estrada para nos orgulhar.

ELP: Como você enxerga este mercado?
KH: É um mercado extremamente dependente de financiamento público, o que gera uma insegurança enorme para produtoras e profissionais com as constantes mudanças de governos (e desgovernos). É um mercado com potencial consumidor ENORME, mas que ainda tem dificuldade de se organizar enquanto indústria para capitalizar e se renovar. Como roteirista especificamente, vejo mais oportunidades na televisão, em séries e novelas que trabalham com salas de roteiro. O boom dos streamings tem dado uma boa oportunidade para escritores iniciantes, mas acho importante destacar a falta de liberdade artística ainda vista nesse meio.

ELP: Nos últimos cinco anos, o que você enxerga de mudanças no mercado? Sejam as positivas e as negativas. 
KH: Os streamings mudaram a forma como se consome audiovisual no mundo. É uma mudança tão ou mais importante — ainda não tivemos tempo pra analisar isso com calma — do que a vista nos anos 70 com os primeiros blockbusters. A sede pelo instantâneo, pelo filme que está ao acesso de um clique, as milhares de possibilidades que te fazem passar, 30, 40, 50 minutos buscando a melhor opção no aplicativo, são um sintoma de grandes mudanças positivas e negativas. Pelo lado positivo, vemos o aumento de consumidores de audiovisual, por consequência da demanda e logo a quantidade de vagas de trabalho. 

ELP: Como você entrou no projeto Usina do Drama? 
KH: Eu entrei na Usina do Drama com o projeto “Vida de Artista”, uma série de comédia estilo documentário falso que segue um grupo de artistas baianos em suas tentativas de fazer sucesso no mercado local. Há algum tempo observava de longe as iniciativas da Estação do Drama, e a Usina sempre foi um projeto que me chamou muito a atenção por ser único em nossa cidade. 

ELP: Qual foi a importância da Usina para você? 
KH: A maior importância do projeto é a troca de experiências. É você aprender a confiar seus sonhos nas mãos de outras pessoas e em contrapartida aprender a ter cuidado e respeito com o material deles. 

ELP: Fazer parte deste projeto afetou de alguma forma o rumo de sua carreira e/ou de sua forma de pensar o audiovisual baiano e nacional? Como?
KH: Ainda não tive tempo hábil de entender por completo o impacto desse projeto na minha carreira, mas já consigo ver como o método de organização de desenvolvimento dos projetos já está influenciando na forma como desenvolvo outros projetos dentro da Olho de Vidro. Hoje em dia eu me sinto muito mais animado no trabalho coletivo de escrita no que no labor individual, e as possibilidades de troca de experiências, ideias em uma sala de roteiro.

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